Para alguns exames meu médico dispensa jejum e pelas instruções do Laboratório é necessário. Qual orientação devo seguir ? E por que esta diferença de informações?
Quando se pensa em exames de sangue, uma questão que sempre surge é: será preciso jejum ou não? Para entender a resposta, que não é nem sim nem não, é importante que se tenha em mente que os exames laboratoriais refletem o estado fisiológico do indivíduo no momento da coleta da amostra, ou seja, é como se fosse uma fotografia. O ideal é que esta fotografia seja a mais representativa possível do estado de saúde do indivíduo. Para que o resultado possa ser informativo e auxiliar em alguma decisão, ele deve ser comparado a um valor ou a um intervalo de referência. Quando o resultado obtido estiver dentro do intervalo de referência, assume-se como "normal"; quando estiver fora, sugere alguma anormalidade. Mas não são apenas as doenças que causam estes desvios. Algumas variações consideradas fisiológicas podem resultar em valores aparentemente patológicos. Uma das causas mais freqüentes é o fato do indivíduo não estar, no momento da coleta, em condições comparáveis com as utilizadas para a definição do intervalo de referência. Estas variações são denominadas variáveis pré-analíticas e incluem dieta, tempo de jejum, variações circadianas, fase do ciclo menstrual, atividade física, stress emocional, uso de medicamentos etc. A dieta, em particular, provoca alterações importantes, uma vez que as substâncias absorvidas, como a glicose, por exemplo, estarão em concentração mais elevada no período pós-prandial do que algum tempo após a alimentação. Outras substâncias, que são utilizadas no processo metabólico da absorção e digestão, tais como o fósforo inorgânico, terão sua concentração rebaixada no período de absorção e mais elevada após um tempo de jejum. Para a maioria das substâncias, as variações decorrentes da alimentação se mantém por uma a duas horas. A glicemia (dosagem de açúcar no sangue), por exemplo, de indivíduos normais, se eleva após a alimentação mas retorna aos níveis basais dentro de duas horas. Outras substâncias, porém, como os triglicérides (uma gordura) pode demorar até 10 horas para voltar aos níveis de jejum. Estes tempos variam na dependência da quantidade e composição da dieta e como os valores de referência são definidos a partir de dosagens em indivíduos em jejum, esta é a melhor condição para se obter as amostras, para que a comparação seja válida. Um tempo de jejum muito prolongado também causa variações. A bilirrubina, por exemplo, pode estar acima dos valores de referência mesmo em indivíduos normais que permaneçam 24 horas sem se alimentar. As proteínas plasmáticas podem, nestas situações, se mostrar abaixo da referência. Além do jejum, a composição da dieta é um fator que influencia a intensidade de variação e o tempo de retorno da concentração de algumas substâncias aos níveis basais. A ingestão de pequena quantidade de bebida alcoólica, por exemplo, por pessoa não habituada a beber, pode provocar a elevação significativa e a permanência de níveis elevados de triglicérides por três a cinco dias! A boa prática laboratorial recomenda que, para a maioria de exames de sangue, a coleta seja realizada após um período mínimo de quatro horas de jejum, para o indivíduo adulto. Crianças e recém-nascidos devem ter este prazo reduzido ou até mesmo abolido, dependendo de cada situação clínica. Para cada exame, porém, pode haver necessidade de orientação específica. Desta forma, neste como em outros aspectos do atendimento médico, as regras não podem ser generalizadas e aplicadas rigorosamente. Cada paciente, cada exame e cada situação devem ter suas particularidades analisadas de forma a se obter o maior grau de confiabilidade dos resultados.